Ou “Enter” ou “Delete”

O Padre João é um sábio. Esclarecendo – falo do Padre João Machado Evangelho, que durante muitos anos foi Pároco em Rio das Ostras, cidade com a qual ainda mantém fortes laços e onde tive o imenso prazer de conhecê-lo e com ele conviver. Quando decidi voltar a escrever, desta vez para a Internet (já fui colunista em alguns jornais impressos, no século passado), pensei, desde o começo, que meu primeiro texto deveria abordar este maravilhoso universo – a “Grande Rede”, a “Net”, as redes sociais, os smartphones e seus aplicativos, as novas ferramentas tecnológicas, enfim, coisas assim. E lembrei-me de uma conversa que tivemos há uns dez anos, quando muito destas “novidades” ainda nem existiam, ou estavam em seu estágio inicial. Perguntei-lhe sobre os jovens, que me pareciam, à época, não ter, pelo menos em sua maioria, objetivos mais elevados na vida, resumindo-os a conseguir um bom emprego, uma boa casa, um carro… Com isso, já se sentiriam “realizados”. Indaguei onde estavam os anseios por justiça social dos anos 60 e 70, o espírito contestador dos anos 80, a preocupação ecológica da década de 90… Ele, serenamente, me respondeu mais ou menos assim: “Ah, meu querido, com esta geração é tudo rápido. Eles não se aprofundam muito nas coisas – é tudo ou Enter ou Delete”!

Nunca esqueci esta conversa. E, diversas vezes, presenciei isto, não só nos jovens, mas também em vários adultos (permitam-me uma obviedade – os adultos de hoje foram os jovens de ontem).  Eles não pensavam muito antes de tomar uma decisão. Não avaliavam as consequências. Se algo lhes parecia bom à primeira vista, aceitavam-no sem questionar – Enter! Se, ao contrário, aparentava ser ruim, rejeitavam-no, também sem questionar- Delete!

Outra coisa que me faz lembrar o Padre João é o Latim. Cultíssimo, muitas vezes ele buscava nesta língua o significado mais profundo das palavras – e me ensinava. Assim, ouso dizer que, para estes novos tempos e estas novas pessoas, meus textos tentarão ser um espaço de reflexão. “Reflexo” vem do Latim “re” (outra vez, novamente) mais “flexus” (dobrado, fletido), do verbo “flectere” (dobrar). “Refletir”, então, seria algo como “dobrar novamente”… No sentido que nos interessa aqui, dobrar-se sobre si mesmo, sobre seus pensamentos, revê-los, reexaminá-los… Esforçar-se no exame dos detalhes, dos desdobramentos…  Conhecer melhor… Basicamente, o contrário do “Ou Enter ou Delete”.

Agradeço aos que lerem minhas colunas, e mais ainda aos que refletirem sobre elas. Não é preciso concordar com o que eu escrever. Como aprendi com outro professor, meu objetivo não deve ser convencer as pessoas e fazer com que elas pensem como eu, mas apenas fazer com que elas pensem.

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